Muita gente me pergunta de onde vêm as inspirações para os projetos que desenvolvo, como surgem as ideias e como eu desenvolvo soluções inusitadas…

Todo o ser humano, naturalmente, tenta catalogar suas experiencias em caixinhas, dentro da memória. A caixinha dos amigos, a caixinha da família… a caixinha do trabalho, a caixinha do lazer… A caixinha do doce, a caixinha do amargo… A caixinha do ultrapassado, a caixinha do contemporâneo… e assim por diante.

A cada experiência nova que o ser humano passa, ele busca abrir, dentro da memória, as caixinhas certas, para arquivar todo aquele conteúdo que inundou seus sentidos: o conteúdo visual, as cores, os odores e perfumes, as texturas, os sabores. Quando o ser humano passa pela mesma experiencia, novamente, as caixinhas certas automaticamente se abrem e, depois que a experiencia passa, se fecham novamente. É o que chamamos de memória afetiva. Muitas pessoas têm caixinha especiais para uma unica pessoa e, dentro dela, ficam armazenados conteúdos diversos, como uma música, um perfume, um lugar… Quando os sentidos entram em contato com algum conteúdo desses, a caixinha dessa pessoa automaticamente se abre e a gente lembra dela – lembrou de alguma caixinha sua?

Eu entendo a criatividade como sendo a capacidade de deixar essas caixinhas abertas, permitindo que os seus conteúdos fluam livremente, sem ficar presos dentro da sua caixinha original. Dessa forma, materiais e tecnologias que estariam dentro da caixinha da industria da moda, das artes plásticas, da tecelagem, da indústria ceramista, moveleira, automobilística e até da aviação, podem migrar para dentro da caixinha da arquitetura e tornarem-se soluções inimagináveis!

dormitório SUITE (4)
closet com fechamento vazado em tela de aço (proveniente da indústria da construção civil) e iluminação com spots refletores em trilhos (provenientes da indústria cinematográfica).

Cada projeto, antes de se tornar um projeto, é uma nova caixinha vazia que surge na mente do arquiteto. Quando essa caixinha abre, muito “conteúdo flutuante” tenta invadi-la. Muitas ideias, muitas referências, muitas soluções para um mesmo espaço.

 

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Mas nem todo o conteúdo flutuante cabe na caixinha…  Nem todo conteúdo é adequado…  Porque essa caixinha não é só do arquiteto… é uma caixinha compartilhada… a caixinha tem um sócio e é um sócio majoritário: O CLIENTE!

O cliente, naturalmente, coloca uma peneira na entrada caixinha… Essa peneira “ESTÉTICA” é formada pelos seus padrões estéticos, suas preferências, suas necessidades e prioridades. Mas essa peneira é invisível ao arquiteto…

Então cliente e arquiteto precisam se reunir, para que o cliente descreva essa peneira. Essa reunião é o briefing! O briefing é uma conversa entre o cliente e o arquiteto, onde o cliente expões as regras da peneira. O que vai passar na peneira e o que não vai. Essa conversa é muito importante para que o arquiteto selecione dentro daquele conteúdo flutuante, somente o que tem chance de passar na peneira!

Imagem relacionadaMuitas vezes o arquiteto quer colocar um conteúdo dentro da caixinha, porque acredita ser a solução perfeita! Mas o cliente, que é o principal interessado na caixinha, não conhece esse conteúdo ou não gosta dele!

Então cabe ao arquiteto, mostrar os benefícios que aquele conteúdo pode trazer, ou encontrar um substituo à altura.

Além da peneira do cliente, existe também uma peneira que o arquiteto coloca na entrada da caixinha. A peneira TÉCNICA! Essa peneira é criada de acordo com alguns fatores, como: o espaço disponível, o orçamento do cliente, o prazo e alguns outros.

Muitas vezes a peneira TÉCNICA é bem complexa, quase nada consegue entrar na caixinha… O esforço do arquiteto se torna maior, pois ele precisa procurar com mais empenho, dentro daquele conteúdo flutuante, um conteúdo específico. Às vezes, o conteúdo não existe dentro da mente do arquiteto. Ele precisa, então procurar, pesquisar, estudar…

É por isso que o arquiteto e outros profissionais criativos precisam inundar suas próprias caixinhas o tempo inteiro, com novos conteúdos. Viagens, mostras, feiras, reuniões com especialistas de outras areas, etc. Tudo o que o arquiteto vê, ouve, toca e sente pode um dia se tornar matéria prima para a criação de seus projetos.

Cada projeto nasce, em primeiro lugar, a partir do conteúdo de sua caixinha, que foi criada em conjunto com o cliente. É um conjunto de ingredientes que, no final do processo, se tornará a receita para a elaboração de um prato perfeito! Na maioria das vezes, os ingredientes precisam ser trabalhados – aparar as arestas, retirar os excessos – e, assim como uma fórmula química precisam ser equilibrados, balanceados, para que essa receita, quando executada, se torne um prato harmônico, que satisfaça o cliente!

As ferramentas para transformar esse monte de ingredientes em uma receita de sucesso são o papel e a caneta –  hoje em dia, também, o computador. Assim como encontrar o equilíbrio entre os ingredientes culinários requer experimentação e trabalho duro, o desenvolvimento do projeto também. Infelizmente, não é viável construir e reconstruir um espaço, inúmeras vezes, até se encontrar as soluções perfeitas. Por isso, os profissionais buscam incessantemente por tecnologias que permitam a criação de ambientes virtuais, onde as soluções possam ser testadas várias vezes, antes de irem definitivamente para a obra.

No final das contas, o desenvolvimento de um projeto é um processo de estudo, criação, adaptação e aperfeiçoamento, que depende da expertise, do empenho e dos métodos do profissional, mas também, da contribuição do cliente, para que tenha resultado satisfatório.

 

 

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